George R. R. Martin. A Guerra dos Tronos - As Crônicas de Gelo e Fogo (Prólogo)
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Prólogo –Deveríamos regressar – insistiu Gared quando os bosques começaram a escurecer ao redor do grupo. – Os selvagens estão mortos. – Os mortos o assustam? – perguntou Sor Waymar Royce com não mais do que uma sugestão de sorriso no rosto. Gared não mordeu a isca. Era um homem velho, com mais de cinquenta anos, e vira os nobres chegarem e partirem. – Um morto é um morto – respondeu. – Nada temos a tratar com os mortos. – Mas estão mortos? – perguntou Royce com suavidade. – Que prova temos disso? – Will os viu – disse Gared. – Se ele diz que estão mortos, é prova suficiente para mim. Will já sabia que o arrastariam para a discussão mais cedo ou mais tarde. Desejou que tivesse sido mais tarde. – Minha mãe me disse que os mortos não cantam – contou Will. – Minha ama de leite disse a mesma coisa, Will – respondeu Royce. – Nunca acredite em nada do que ouvir junto ao peito de uma mulher. Há coisas a aprender mesmo com os mortos – sua voz criou ecos, alta demais na penumbra da floresta. – Temos uma longa cavalgada pela frente – salientou Gared. – Oito dias, talvez nove. E a noite está para cair. Sor Waymar Royce olhou para o céu de relance, com desinteresse. – Isso acontece todos os dias a esta hora. Você perde a virilidade no escuro, Gared?

Will via a boca de Gared comprimida, a ira só a custo reprimida nos olhos que espreitavam sob o espesso capuz negro de seu manto. Ele passara quarenta anos na Patrulha da Noite, desde que era jovem até se tornar um homem, e não estava acostumado a ser desvalorizado. Mas era mais do que isso. Will conseguia detectar no homem mais velho algo mais sob o orgulho ferido. Era possível sentir-lhe o gosto: uma tensão nervosa que se aproximava perigosamente do medo. Will partilhava o desconforto do outro homem. Estava havia quatro anos na Muralha. Quando fora enviado para lá, todas as velhas histórias ressurgiram em sua mente, e suas entranhas tinham virado água. Era agora um veterano de cem patrulhas, e a sombria e infinita terra selvagem a que os homens do sul chamavam de floresta assombrada já não o aterrorizava.

Até aquela noite. Algo parecia diferente então. Havia naquela escuridão algo ameaçador que fazia os pelos de sua nuca eriçarem. Cavalgavam havia nove dias, para norte e noroeste, e depois de novo para norte, cada vez para mais distante da Muralha, seguindo sem desvios a trilha de um bando de salteadores selvagens. Cada dia fora pior que o anterior. Aquele tinha sido o pior de todos. Um vento frio soprava do norte e fazia as árvores sussurrarem como coisas vivas. Durante todo o dia, Will tivera a sensação de que alguma coisa o observava, algo frio e implacável que não gostava dele. Gared também sentira. Will desejava com toda a sua força cavalgar rapidamente de volta à segurança da Muralha, mas este não era um sentimento que poderia partilhar com um comandante. Especialmente um comandante como aquele.

Sor Waymar Royce era o filho mais novo de uma Casa antiga com herdeiros demais. Era um jovem atraente de dezoito anos, olhos cinzentos, elegante e esbelto como uma faca. Montado em seu enorme corcel de batalha negro, o cavaleiro elevava-se bem acima de Will e Gared, montados em seus garranos de menores dimensões. Trajava botas negras de couro, calças negras de lã, luvas negras de pele de toupeira e uma cintilante cota de malha negra e flexível por cima de várias camadas de lã negra e couro fervido. Sor Waymar era um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite havia menos de meio ano, mas ninguém poderia dizer que não se preparara para a sua vocação. Pelo menos no que dizia respeito ao guarda-roupa. O manto constituía a consumação de sua glória: zibelina, espessa e negra, suave como pele. “Aposto que foi ele mesmo quem as matou todas, ah, com certeza”, dissera Gared na caserna, entre os vapores do vinho, “torceu-lhes as cabecinhas e arrancou-as, o nosso poderoso guerreiro.” A gargalhada fora partilhada por todos. “É difícil aceitar ordens de um homem de quem zombamos de copo na mão”, refletiu Will, sentado, tremendo, sobre o dorso do garrano. Gared devia sentir o mesmo. – Mormont nos disse para os encontrarmos, e encontramos – disse Gared. – Estão mortos. Não voltarão a nos causar problemas. Temos uma dura cavalgada pela frente. Não gosto desse tempo. Se nevar, poderemos levar uma quinzena para regressar, e a neve é o melhor que podemos esperar. Alguma vez viu uma tempestade de gelo, senhor? O nobre pareceu não ouvi-lo. Estudava o crepúsculo, o que acentuava aquele seu modo meio aborrecido e meio distraído. Will já cavalgava com o cavaleiro havia tempo suficiente para compreender que era melhor não o interromper quando tinha aquela expressão. – Diga-me de novo o que viu, Will. Todos os detalhes. Não deixe nada de fora. Will fora um caçador antes de se juntar à Patrulha da Noite. Bem, na verdade fora um caçador furtivo. Os cavaleiros livres de Mallister tinham-no apanhado com a boca na botija nos bosques do próprio Mallister, esfolando um de seus gamos, e pudera apenas escolher entre vestir-se de negro e perder uma mão. Ninguém conseguia se mover pela floresta tão silenciosamente como Will, e os irmãos negros não tinham demorado muito tempo para descobrir seu talento. – O acampamento fica duas milhas mais à frente, para lá daquela cumeada, ao lado de um córrego – disse Will. – Cheguei o mais perto que me atrevi. Eles são oito, com homens e mulheres. Não vi crianças. Ergueram um abrigo contra a rocha. A neve já o cobriu bem, mesmo assim consegui descortiná-lo. Não vi nenhum fogo ardendo, mas a cova da fogueira ainda estava clara como o dia. Ninguém se movia. Observei durante muito tempo. Nunca um homem vivo ficou tão quieto. – Viu algum sangue? – Bem, não – admitiu Will. – Viu armas? – Algumas espadas, uns tantos arcos. Um homem tinha um machado. Parecia ser pesado, com duas lâminas, um cruel bocado de ferro. Estava no chão a seu lado, junto à sua mão. – Prestou atenção à posição dos corpos? Will encolheu os ombros. – Um par deles está sentado junto ao rochedo. A maioria está no chão. Parecem caídos. – Ou adormecidos – sugeriu Royce. – Caídos – insistiu Will. – Há uma mulher numa árvore de pau-ferro, meio escondida entre os galhos. Uma olhos-longos – ele abriu um tênue sorriso. – Assegurei-me de que não conseguiria me ver. Quando me aproximei, notei que ela também não se movia – e sacudiu-se por um estremecimento involuntário. – Está com frio? – perguntou Royce. – Um pouco – murmurou Will. – É o vento, senhor. O jovem cavaleiro virou-se para seu grisalho homem de armas. Folhas pesadas de geada suspiravam ao passar por eles, e o corcel de batalha movia-se de forma inquieta. – Que lhe parece que possa ter matado aqueles homens, Gared? – perguntou Sor Waymar com ar casual, arrumando o longo manto de zibelina. – Foi o frio – disse Gared com uma certeza férrea. – Vi homens congelar no inverno passado e no outro antes desse, quando eu era pequeno. Toda a gente fala de neve com doze metros de profundidade, e do modo como o vento de gelo chega do norte uivando, mas o verdadeiro inimigo é o frio. Aproxima-se em silêncio, mais furtivo do que o Will. A princípio, estremece-se e os dentes batem, e bate-se com os pés no chão e sonha-se com vinho aquecido e boas e quentes fogueiras. Ele queima, ah, como queima. Nada queima como o frio. Mas só durante algum tempo. Então penetra no corpo e começa a enchê-lo, e passado algum tempo já não se tem força suficiente para combatê-lo. É mais fácil limitarmo-nos a nos sentar ou a adormecer. Dizem que não se sente dor alguma perto do fim. Primeiro, fica-se fraco e sonolento, e tudo começa a se desvanecer, e depois é como afundar pacificamente num mar de leite morno. – Quanta eloquência, Gared – observou Sor Waymar. – Nunca suspeitei que a tivesse dentro de si. – Também tive o frio dentro de mim, senhor – Gared puxou para trás o capuz, oferecendo a Sor Waymar um longo vislumbre dos cotos onde as orelhas tinham estado. – Duas orelhas, três dedos dos pés e o mindinho da mão esquerda. Tive sorte. Encontramos meu irmão congelado no seu posto de vigia, com um sorriso no rosto. Sor Waymar encolheu os ombros. – Deveria vestir roupas mais quentes, Gared. Gared lançou ao nobre um olhar feroz, e as cicatrizes em redor de suas orelhas ficaram vermelhas de fúria nos locais onde Meistre Aemon as cortara.

– Veremos quão quente poderá se vestir quando chegar o inverno – puxou o capuz para cima e arqueou as costas sobre o garrano, silencioso e carrancudo. – Se Gared diz que foi o frio… – começou Will. – Você fez alguma vigia nesta última semana, Will? – Sim, senhor – nunca havia uma semana em que ele não fizesse uma maldita dúzia de vigias. Aonde o homem queria chegar? – E em que estado encontrou a Muralha? – Úmida – Will respondeu, franzindo a sobrancelha. Agora que o nobre o fizera notar, via os fatos com clareza. – Eles não podem ter congelado. Se a Muralha está úmida, não podem. O frio não é suficiente. Royce assentiu. – Rapaz esperto. Tivemos alguns frios passageiros na semana passada, e uma rápida nevasca de vez em quando, mas com certeza não houve nenhum frio suficientemente forte para matar oito homens adultos. Homens vestidos de peles e couro, relembro, com um abrigo ali à mão e meios para fazer fogo – o sorriso do cavaleiro transbordava confiança. – Will, leve-nos lá. Quero ver esses mortos com meus próprios olhos. E a partir desse momento nada mais havia a fazer. A ordem fora dada, e a honra os obrigava a obedecer. Will seguiu à frente, com o pequeno garrano felpudo escolhendo com cuidado o caminho por entre a vegetação rasteira. Uma neve ligeira caíra na noite anterior, e havia pedras, raízes e buracos escondidos por baixo de sua crosta, à espreita dos descuidados e dos imprudentes. Sor Waymar Royce vinha logo atrás, com o grande corcel negro de batalha resfolegando de impaciência. Aquele cavalo era a montaria errada para uma patrulha, mas tentem dizer isso ao nobre. Gared fechava a retaguarda. O velho soldado resmungava para si mesmo enquanto avançava. O crepúsculo aprofundava-se. O céu sem nuvens tomou um profundo tom de púrpura, a cor de uma velha mancha escura, e depois se dissolveu em negro. As estrelas começaram a surgir. Uma meia-lua se ergueu. Will estava grato pela luz. – Certamente podemos avançar mais depressa do que isto – disse Royce depois de a lua se erguer por completo. – Com este cavalo, não – respondeu Will. O medo tornara-o insolente. – Talvez meu senhor deseje tomar a dianteira? Sor Waymar Royce não se dignou a responder. Em algum lugar nos bosques, um lobo uivou.

Will levou o garrano para baixo de uma velha e nodosa árvore de pau-ferro e desmontou. – Por que parou? – perguntou Sor Waymar. – É melhor ir o resto do caminho a pé, senhor. O lugar é logo depois daquela colina. Royce fez uma pausa momentânea, de olhos presos na distância e com o rosto pensativo. Um vento frio sussurrou por entre as árvores. O grande manto de zibelina agitou-se nas costas como uma coisa semiviva. – Há alguma coisa errada aqui – murmurou Gared. O jovem cavaleiro lhe sorriu desdenhosamente. – É mesmo? – Não sentiu? – perguntou Gared. – Escute a escuridão. Will sentia. Em quatro anos na Patrulha da Noite, nunca sentira tanto medo. O que era aquilo?

– Vento. Ruído de árvores. Um lobo. Que som te apavora tanto, Gared? – como este não respondeu, Royce deslizou graciosamente da sela. Atou com segurança o corcel de batalha a um galho baixo, bem afastado dos outros cavalos, e desembainhou a espada. Joias cintilaram no punho e o luar percorreu o aço brilhante. Era uma arma magnífica, forjada num castelo e, segundo aparentava, novinha em folha. Will duvidava que alguma vez tivesse sido brandida em fúria. – O arvoredo é espesso por aqui – preveniu Will. – Essa espada o atrapalhará, senhor. Uma faca é melhor. – Se precisar de instruções, eu as pedirei – disse o jovem senhor. – Gared, fique aqui. Guarde os cavalos. Gared desmontou. – Precisamos de uma fogueira. Cuidarei disso.

– Quanta tolice tem nessa cabeça, velhote? Se houver inimigos nesta floresta, uma fogueira é a última coisa que queremos. – Há alguns inimigos que uma fogueira manterá afastados – disse Gared. – Ursos, lobos gigantes e… e outras coisas… A boca de Sor Waymar transformou-se numa linha dura. – Não haverá fogo. O capuz de Gared engolia-lhe o rosto, mas Will conseguia ver a cintilação dura nos olhos que se fixavam no cavaleiro. Por um momento, temeu que o homem mais velho puxasse a espada. Era uma coisa curta e feia, com o punho desbotado pelo suor e o gume denteado pelo uso frequente, mas Will não daria um pendão de ferro pela vida do nobre se Gared a desembainhasse. Por fim, Gared olhou para baixo.

– Não haverá fogo – murmurou de forma quase inaudível. Royce tomou aquilo como aquiescência e virou-se. – Indique o caminho – disse a Will. Will teceu uma trilha através de um matagal, depois subiu o declive da colina baixa onde encontrara seu ponto de vigia, por baixo de uma árvore sentinela. Sob a fina crosta de neve, o solo estava úmido e lamacento, escorregadio, com rochas e raízes escondidas, prontas para provocar tropeços. Will não fez nenhum som enquanto subia. Atrás de si ouvia o suave roçar metálico da cota de malha do nobre, o restolhar de folhas e pragas murmuradas quando galhos se prendiam à espada e puxavam o magnífico manto de zibelina do outro homem.

A grande árvore estava mesmo no topo da colina onde Will sabia que estaria, com os galhos inferiores não mais que trinta centímetros acima do solo. Will deslizou por baixo, com a barriga apoiada na neve e na lama, e olhou a clareira vazia mais abaixo. O coração parou em seu peito. Por um momento, não se atreveu a respirar. O luar brilhava acima da clareira, sobre as cinzas no buraco da fogueira, sobre o abrigo coberto de neve, sobre o grande rochedo e sobre o pequeno riacho meio congelado. Tudo estava como estivera algumas horas antes. Eles não estavam lá. Todos os corpos tinham desaparecido. – Deuses! – ouviu alguém dizer atrás de si. Uma espada golpeou um galho quando Sor Waymar Royce atingiu o topo da colina. Ficou em pé ao lado da árvore, de espada na mão, com o manto a ondular nas costas, soprado pelo vento que se levantava, nobremente delineado contra as estrelas para que todos o vissem. – Abaixe-se! – sussurrou Will com urgência. – Há algo de errado. Royce não se moveu. Olhou para a clareira vazia e deu risada. – Parece que seus mortos levantaram acampamento, Will. A voz de Will o abandonou. Procurou palavras que não vieram. Não era possível. Seus olhos percorreram toda a extensão do acampamento abandonado e pararam no machado. Um enorme machado de batalha de duas lâminas, ainda caído onde o vira pela última vez, intocado. Uma arma valiosa… – De pé, Will – ordenou Sor Waymar. – Não há ninguém aqui. Não quero vê-lo escondido por baixo de um arbusto. Relutante, Will obedeceu. Sor Waymar olhou-o com aberta desaprovação: – Não vou regressar a Castelo Negro com um fracasso em minha primeira patrulha. Vamos encontrar aqueles homens – olhou de relance em volta. – Suba na árvore. Seja rápido. Procure uma fogueira. Will virou-se, sem palavras. Não valia a pena discutir. O vento movia-se. Trespassava-o. Dirigiu-se para a árvore, uma sentinela abobadada cinza-esverdeada, e começou a subir. Em pouco tempo tinha as mãos pegajosas de seiva e estava perdido entre as agulhas. O medo enchia-lhe o estômago como uma refeição que não conseguia digerir. Murmurou uma prece aos deuses sem nome da floresta e libertou o punhal da bainha. Colocou-o entre os dentes para manter as mãos livres para a escalada. O sabor do ferro frio na boca o confortou. Embaixo, o nobre bruscamente gritou: – Quem vem lá? Will ouviu incerteza na pergunta. Parou de escalar; escutou; observou. Os bosques responderam: um restolhar de folhas, o correr gelado do riacho, o pio distante de uma coruja das neves. Os Outros não faziam som algum. Will viu movimento com o canto do olho. Sombras pálidas que deslizavam pela floresta. Virou a cabeça, viu de relance uma sombra branca na escuridão. Logo depois ela desapareceu. Galhos agitaram-se gentilmente ao vento, coçando uns aos outros com dedos de madeira. Will abriu a boca para gritar um aviso, mas as palavras pareceram congelar na garganta. Talvez estivesse errado.

Talvez tivesse sido apenas uma ave, um reflexo na neve, um truque qualquer do luar. Afinal, o que vira? – Will, onde está? – chamou Sor Waymar. – Vê alguma coisa? – o homem descrevia um círculo lento, cauteloso, de espada na mão. Deve tê-los pressentido, tal como Will os pressentia. Nada havia para ver. – Responda! Por que está tão frio? E estava frio. Tremendo, Will agarrou-se com mais força ao seu poleiro. Apertou o rosto com força contra o tronco da árvore. Sentia a seiva doce e pegajosa na bochecha. Uma sombra emergiu da escuridão da floresta. Parou na frente de Royce. Era alta, descarnada e dura como ossos velhos, com uma carne pálida como leite. Sua armadura parecia mudar de cor quando se movia; aqui era tão branca como neve recém-caída, ali, negra como uma sombra, por todo o lado salpicada com o escuro cinza-esverdeado das árvores. Os padrões corriam como o luar na água a cada passo que dava. Will ouviu a exalação sair de Sor Waymar Royce num longo silvo. – Não avance mais – preveniu o nobre. A voz estava esganiçada como a de um rapaz. Atirou o longo manto de zibelina para trás, por sobre os ombros, a fim de libertar os braços para a batalha, e pegou na espada com ambas as mãos. O vento parara. Estava muito frio. O Outro deslizou para a frente sobre pés silenciosos. Na mão, trazia uma espada diferente de tudo que Will tivesse visto. Nenhum metal humano tinha entrado na forja daquela lâmina. Estava viva de luar, translúcida, um fragmento de cristal tão fino que parecia quase desaparecer quando visto de frente. Havia naquela coisa uma tênue cintilação azul, uma luz fantasmagórica que brincava com os seus limites, e de algum modo Will soube que era mais afiada do que qualquer navalha. Sor Waymar enfrentou o inimigo com bravura. – Neste caso, dance comigo. Ergueu a espada bem alto, acima da cabeça, desafiador. As mãos tremiam com o peso da arma, ou talvez devido ao frio. Mas naquele momento, pensou Will, Sor Waymar já não era um rapaz, e sim um homem da Patrulha da Noite. O Outro parou. Will viu seus olhos, azuis, mais profundos e mais azuis do que quaisquer olhos humanos, de um azul que queimava como gelo. Will fixou-se na espada que estremecia, erguida, e observou o luar que corria, frio, ao longo do metal. Durante um segundo, atreveu-se a ter esperança. Emergiram em silêncio, das sombras, gêmeos do primeiro. Três… quatro… cinco… Sor Waymar talvez tivesse sentido o frio que vinha com eles, mas não chegou a vê-los, não chegou a ouvi-los. Will tinha de chamá-lo. Era seu dever. E sua morte, se o fizesse. Estremeceu, abraçou a árvore e manteve o silêncio. A espada clara veio pelo ar, tremendo. Sor Waymar parou-a com o aço. Quando as lâminas se encontraram, não se ouviu nenhum ressoar de metal com metal, apenas um som agudo e fino, quase inaudível, como um animal a guinchar de dor. Royce deteve um segundo golpe, e um terceiro, e depois recuou um passo. Outra chuva de golpes, e recuou outra vez. Atrás dele, para a direita, para a esquerda, à sua volta, os observadores mantinham-se em pé, pacientes, sem rosto, silenciosos, com os padrões mutáveis de suas delicadas armaduras a torná-los quase invisíveis na floresta. Mas não faziam um gesto para intervir. Uma vez e outra, as espadas encontraram-se, até Will querer tapar os ouvidos, protegendo-os do estranho e angustiado lamento de seus choques. Sor Waymar já arquejava por causa do esforço, e a respiração criava nuvens ao luar. Sua lâmina estava branca de gelo; a do Outro dançava com uma pálida luz azul. Então, o golpe de Royce chegou um pouco tarde demais. A espada cristalina trespassou a cota de malha por baixo de seu braço. O jovem senhor gritou de dor. Sangue surgiu por entre os aros, jorrando no ar frio, e as gotas pareciam vermelhas como fogo onde tocavam a neve. Os dedos de Sor Waymar tocaram o flanco. Sua luva de pele de toupeira veio empapada de vermelho. O Outro disse qualquer coisa numa língua que Will não conhecia; sua voz era como o quebrar do gelo num lago de inverno, e as palavras, escarnecedoras. Sor Waymar Royce encontrou sua fúria. – Por Robert! – gritou, e atacou, rosnando, erguendo com ambas as mãos a espada coberta de gelo e brandindo-a num golpe lateral paralelo ao chão, carregado com todo o seu peso. O golpe do Outro foi quase displicente. Quando as lâminas se tocaram, o aço despedaçou-se. Um grito ecoou pela noite da floresta, e a espada quebrou-se numa centena de pedaços, espalhando os estilhaços como uma chuva de agulhas. Royce caiu de joelhos, guinchando, e cobriu os olhos. Sangue jorrou-lhe por entre os dedos. Os observadores aproximaram-se uns dos outros, como que em resposta a um sinal. Espadas ergueram-se e caíram, tudo num silêncio mortal.

Era um assassinato frio. As lâminas pálidas atravessaram a cota de malha como se fosse seda. Will fechou os olhos. Muito abaixo, ouviu as vozes e os risos, aguçados como pingentes. Quando reuniu coragem para voltar a olhar, um longo tempo se passara, e a colina lá embaixo estava vazia. Ficou na árvore, quase sem se atrever a respirar, enquanto a lua foi rastejando lentamente pelo céu negro. Por fim, com os músculos cheios de cãibras e os dedos dormentes de frio, desceu. O corpo de Royce jazia de barriga para baixo na neve, com um braço aberto. O espesso manto de zibelina tinha sido cortado numa dúzia de lugares. Jazendo assim morto, via-se como era novo. Um rapaz. Will encontrou o que restava da espada a alguns pés de distância, com a extremidade estilhaçada e retorcida, como uma árvore atingida por um relâmpago. Ajoelhou-se, olhou em volta com cautela e a apanhou. A espada quebrada seria sua prova. Gared saberia compreendê-la, e, se não soubesse, então haveria o velho urso do Mormont ou o Meistre Aemon. Estaria Gared ainda à espera com os cavalos? Tinha de se apressar. Will endireitou-se. Sor Waymar Royce erguia-se sobre ele. Suas belas roupas eram farrapos, o rosto, uma ruína. Um estilhaço da espada trespassara a agora branca e cega pupila do olho esquerdo. O olho direito estava aberto. A pupila queimava, azul. Via. A espada quebrada caiu de dedos despidos de força. Will fechou os olhos para rezar. Mãos longas e elegantes roçaram em sua bochecha e depois se fecharam em volta de sua garganta. Estavam enluvadas na mais fina pele de toupeira e pegajosas de sangue, mas seu toque era frio como gelo.
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– Os selvagens estão mortos.
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– Os mortos o assustam?
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Gared não mordeu a isca.
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– Um morto é um morto – respondeu.
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– Nada temos a tratar com os mortos.
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– Mas estão mortos?
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– perguntou Royce com suavidade.
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– Que prova temos disso?
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– Will os viu – disse Gared.
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– Se ele diz que estão mortos, é prova suficiente para mim.
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Desejou que tivesse sido mais tarde.
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– Minha mãe me disse que os mortos não cantam – contou Will.
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– Minha ama de leite disse a mesma coisa, Will – respondeu Royce.
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– Nunca acredite em nada do que ouvir junto ao peito de uma mulher.
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– Temos uma longa cavalgada pela frente – salientou Gared.
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– Oito dias, talvez nove.
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E a noite está para cair.
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Sor Waymar Royce olhou para o céu de relance, com desinteresse.
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– Isso acontece todos os dias a esta hora.
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Você perde a virilidade no escuro, Gared?
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Mas era mais do que isso.
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Will partilhava o desconforto do outro homem.
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Estava havia quatro anos na Muralha.
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Até aquela noite.
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Algo parecia diferente então.
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Cada dia fora pior que o anterior.
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Aquele tinha sido o pior de todos.
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Gared também sentira.
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Especialmente um comandante como aquele.
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Pelo menos no que dizia respeito ao guarda-roupa.
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Gared devia sentir o mesmo.
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– Estão mortos.
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Não voltarão a nos causar problemas.
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Temos uma dura cavalgada pela frente.
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Não gosto desse tempo.
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Alguma vez viu uma tempestade de gelo, senhor?
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O nobre pareceu não ouvi-lo.
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– Diga-me de novo o que viu, Will.
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Todos os detalhes.
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Não deixe nada de fora.
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Will fora um caçador antes de se juntar à Patrulha da Noite.
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Bem, na verdade fora um caçador furtivo.
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– Cheguei o mais perto que me atrevi.
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Eles são oito, com homens e mulheres.
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Não vi crianças.
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Ergueram um abrigo contra a rocha.
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A neve já o cobriu bem, mesmo assim consegui descortiná-lo.
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Ninguém se movia.
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Observei durante muito tempo.
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Nunca um homem vivo ficou tão quieto.
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– Viu algum sangue?
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– Bem, não – admitiu Will.
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– Viu armas?
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– Algumas espadas, uns tantos arcos.
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Um homem tinha um machado.
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Parecia ser pesado, com duas lâminas, um cruel bocado de ferro.
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Estava no chão a seu lado, junto à sua mão.
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– Prestou atenção à posição dos corpos?
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Will encolheu os ombros.
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– Um par deles está sentado junto ao rochedo.
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A maioria está no chão.
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Parecem caídos.
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– Ou adormecidos – sugeriu Royce.
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– Caídos – insistiu Will.
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Uma olhos-longos – ele abriu um tênue sorriso.
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– Assegurei-me de que não conseguiria me ver.
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– Está com frio?
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– perguntou Royce.
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unit 103
– Um pouco – murmurou Will.
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unit 104
– É o vento, senhor.
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unit 105
O jovem cavaleiro virou-se para seu grisalho homem de armas.
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unit 107
– Que lhe parece que possa ter matado aqueles homens, Gared?
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unit 108
unit 109
– Foi o frio – disse Gared com uma certeza férrea.
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unit 112
Aproxima-se em silêncio, mais furtivo do que o Will.
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unit 114
Ele queima, ah, como queima.
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unit 115
Nada queima como o frio.
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unit 116
Mas só durante algum tempo.
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unit 118
É mais fácil limitarmo-nos a nos sentar ou a adormecer.
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unit 119
Dizem que não se sente dor alguma perto do fim.
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unit 121
– Quanta eloquência, Gared – observou Sor Waymar.
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unit 122
– Nunca suspeitei que a tivesse dentro de si.
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unit 124
– Duas orelhas, três dedos dos pés e o mindinho da mão esquerda.
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unit 125
Tive sorte.
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unit 127
Sor Waymar encolheu os ombros.
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unit 128
– Deveria vestir roupas mais quentes, Gared.
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unit 131
– Se Gared diz que foi o frio… – começou Will.
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unit 132
– Você fez alguma vigia nesta última semana, Will?
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unit 134
Aonde o homem queria chegar?
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unit 135
– E em que estado encontrou a Muralha?
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unit 136
– Úmida – Will respondeu, franzindo a sobrancelha.
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unit 137
Agora que o nobre o fizera notar, via os fatos com clareza.
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unit 138
– Eles não podem ter congelado.
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unit 139
Se a Muralha está úmida, não podem.
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unit 140
O frio não é suficiente.
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unit 141
Royce assentiu.
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unit 142
– Rapaz esperto.
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unit 145
– Will, leve-nos lá.
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unit 146
Quero ver esses mortos com meus próprios olhos.
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unit 147
E a partir desse momento nada mais havia a fazer.
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unit 148
A ordem fora dada, e a honra os obrigava a obedecer.
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unit 153
Gared fechava a retaguarda.
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unit 154
O velho soldado resmungava para si mesmo enquanto avançava.
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unit 155
O crepúsculo aprofundava-se.
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unit 157
As estrelas começaram a surgir.
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unit 158
Uma meia-lua se ergueu.
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unit 159
Will estava grato pela luz.
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unit 161
– Com este cavalo, não – respondeu Will.
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unit 162
O medo tornara-o insolente.
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unit 163
– Talvez meu senhor deseje tomar a dianteira?
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unit 164
Sor Waymar Royce não se dignou a responder.
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unit 165
Em algum lugar nos bosques, um lobo uivou.
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unit 167
– Por que parou?
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unit 168
– perguntou Sor Waymar.
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unit 169
– É melhor ir o resto do caminho a pé, senhor.
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unit 170
O lugar é logo depois daquela colina.
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unit 172
Um vento frio sussurrou por entre as árvores.
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unit 173
O grande manto de zibelina agitou-se nas costas como uma coisa semiviva.
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unit 174
– Há alguma coisa errada aqui – murmurou Gared.
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unit 175
O jovem cavaleiro lhe sorriu desdenhosamente.
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unit 176
– É mesmo?
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unit 177
– Não sentiu?
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unit 178
– perguntou Gared.
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unit 179
– Escute a escuridão.
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unit 180
Will sentia.
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unit 181
Em quatro anos na Patrulha da Noite, nunca sentira tanto medo.
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unit 182
O que era aquilo?
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unit 183
– Vento.
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unit 184
Ruído de árvores.
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unit 185
Um lobo.
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unit 186
Que som te apavora tanto, Gared?
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unit 187
– como este não respondeu, Royce deslizou graciosamente da sela.
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unit 189
Joias cintilaram no punho e o luar percorreu o aço brilhante.
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unit 191
Will duvidava que alguma vez tivesse sido brandida em fúria.
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unit 192
– O arvoredo é espesso por aqui – preveniu Will.
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unit 193
– Essa espada o atrapalhará, senhor.
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unit 194
Uma faca é melhor.
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unit 195
– Se precisar de instruções, eu as pedirei – disse o jovem senhor.
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unit 196
– Gared, fique aqui.
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unit 197
Guarde os cavalos.
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unit 198
Gared desmontou.
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unit 199
– Precisamos de uma fogueira.
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unit 200
Cuidarei disso.
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unit 201
– Quanta tolice tem nessa cabeça, velhote?
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unit 203
unit 205
– Não haverá fogo.
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unit 207
Por um momento, temeu que o homem mais velho puxasse a espada.
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unit 209
Por fim, Gared olhou para baixo.
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unit 210
– Não haverá fogo – murmurou de forma quase inaudível.
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unit 211
Royce tomou aquilo como aquiescência e virou-se.
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unit 212
– Indique o caminho – disse a Will.
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unit 215
Will não fez nenhum som enquanto subia.
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unit 219
O coração parou em seu peito.
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unit 220
Por um momento, não se atreveu a respirar.
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unit 222
Tudo estava como estivera algumas horas antes.
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unit 223
Eles não estavam lá.
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unit 224
Todos os corpos tinham desaparecido.
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unit 225
– Deuses!
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unit 226
– ouviu alguém dizer atrás de si.
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unit 227
unit 229
– Abaixe-se!
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unit 230
– sussurrou Will com urgência.
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unit 231
– Há algo de errado.
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unit 232
Royce não se moveu.
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unit 233
Olhou para a clareira vazia e deu risada.
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unit 234
– Parece que seus mortos levantaram acampamento, Will.
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unit 235
A voz de Will o abandonou.
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unit 236
Procurou palavras que não vieram.
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unit 237
Não era possível.
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unit 240
Uma arma valiosa… – De pé, Will – ordenou Sor Waymar.
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unit 241
– Não há ninguém aqui.
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unit 242
Não quero vê-lo escondido por baixo de um arbusto.
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unit 243
Relutante, Will obedeceu.
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unit 245
Vamos encontrar aqueles homens – olhou de relance em volta.
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unit 246
– Suba na árvore.
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unit 247
Seja rápido.
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unit 248
Procure uma fogueira.
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unit 249
Will virou-se, sem palavras.
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unit 250
Não valia a pena discutir.
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unit 251
O vento movia-se.
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unit 252
Trespassava-o.
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unit 255
unit 257
Colocou-o entre os dentes para manter as mãos livres para a escalada.
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unit 258
O sabor do ferro frio na boca o confortou.
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unit 259
Embaixo, o nobre bruscamente gritou: – Quem vem lá?
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unit 260
Will ouviu incerteza na pergunta.
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unit 261
Parou de escalar; escutou; observou.
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unit 263
Os Outros não faziam som algum.
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unit 264
Will viu movimento com o canto do olho.
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unit 265
Sombras pálidas que deslizavam pela floresta.
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unit 266
Virou a cabeça, viu de relance uma sombra branca na escuridão.
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unit 267
Logo depois ela desapareceu.
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unit 270
Talvez estivesse errado.
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unit 272
Afinal, o que vira?
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unit 273
– Will, onde está?
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– chamou Sor Waymar.
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– Vê alguma coisa?
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– o homem descrevia um círculo lento, cauteloso, de espada na mão.
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unit 277
Deve tê-los pressentido, tal como Will os pressentia.
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unit 278
Nada havia para ver.
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– Responda!
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unit 280
Por que está tão frio?
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E estava frio.
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Tremendo, Will agarrou-se com mais força ao seu poleiro.
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unit 283
Apertou o rosto com força contra o tronco da árvore.
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unit 284
Sentia a seiva doce e pegajosa na bochecha.
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unit 285
Uma sombra emergiu da escuridão da floresta.
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Parou na frente de Royce.
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unit 289
Os padrões corriam como o luar na água a cada passo que dava.
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unit 290
Will ouviu a exalação sair de Sor Waymar Royce num longo silvo.
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unit 291
– Não avance mais – preveniu o nobre.
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unit 292
A voz estava esganiçada como a de um rapaz.
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unit 294
O vento parara.
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unit 295
Estava muito frio.
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unit 296
O Outro deslizou para a frente sobre pés silenciosos.
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unit 297
Na mão, trazia uma espada diferente de tudo que Will tivesse visto.
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unit 298
Nenhum metal humano tinha entrado na forja daquela lâmina.
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unit 301
Sor Waymar enfrentou o inimigo com bravura.
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unit 302
– Neste caso, dance comigo.
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unit 303
Ergueu a espada bem alto, acima da cabeça, desafiador.
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unit 304
As mãos tremiam com o peso da arma, ou talvez devido ao frio.
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unit 306
O Outro parou.
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unit 309
Durante um segundo, atreveu-se a ter esperança.
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unit 310
Emergiram em silêncio, das sombras, gêmeos do primeiro.
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unit 312
Will tinha de chamá-lo.
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unit 313
Era seu dever.
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unit 314
E sua morte, se o fizesse.
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unit 315
Estremeceu, abraçou a árvore e manteve o silêncio.
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unit 316
A espada clara veio pelo ar, tremendo.
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unit 317
Sor Waymar parou-a com o aço.
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unit 319
Royce deteve um segundo golpe, e um terceiro, e depois recuou um passo.
0 Translations, 0 Upvotes, Last Activity None
unit 320
Outra chuva de golpes, e recuou outra vez.
0 Translations, 0 Upvotes, Last Activity None
unit 322
Mas não faziam um gesto para intervir.
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unit 326
Então, o golpe de Royce chegou um pouco tarde demais.
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unit 327
A espada cristalina trespassou a cota de malha por baixo de seu braço.
0 Translations, 0 Upvotes, Last Activity None
unit 328
O jovem senhor gritou de dor.
0 Translations, 0 Upvotes, Last Activity None
unit 330
Os dedos de Sor Waymar tocaram o flanco.
0 Translations, 0 Upvotes, Last Activity None
unit 331
Sua luva de pele de toupeira veio empapada de vermelho.
0 Translations, 0 Upvotes, Last Activity None
unit 333
Sor Waymar Royce encontrou sua fúria.
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unit 334
– Por Robert!
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unit 336
O golpe do Outro foi quase displicente.
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unit 337
Quando as lâminas se tocaram, o aço despedaçou-se.
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unit 339
Royce caiu de joelhos, guinchando, e cobriu os olhos.
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unit 340
Sangue jorrou-lhe por entre os dedos.
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unit 342
Espadas ergueram-se e caíram, tudo num silêncio mortal.
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unit 343
Era um assassinato frio.
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unit 344
As lâminas pálidas atravessaram a cota de malha como se fosse seda.
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unit 345
Will fechou os olhos.
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unit 346
Muito abaixo, ouviu as vozes e os risos, aguçados como pingentes.
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unit 350
unit 351
O espesso manto de zibelina tinha sido cortado numa dúzia de lugares.
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unit 352
Jazendo assim morto, via-se como era novo.
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unit 353
Um rapaz.
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unit 355
Ajoelhou-se, olhou em volta com cautela e a apanhou.
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unit 356
A espada quebrada seria sua prova.
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unit 358
Estaria Gared ainda à espera com os cavalos?
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unit 359
Tinha de se apressar.
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unit 360
Will endireitou-se.
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unit 361
Sor Waymar Royce erguia-se sobre ele.
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unit 362
Suas belas roupas eram farrapos, o rosto, uma ruína.
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unit 364
O olho direito estava aberto.
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unit 365
A pupila queimava, azul.
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unit 366
Via.
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unit 367
A espada quebrada caiu de dedos despidos de força.
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Will fechou os olhos para rezar.
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Prólogo

–Deveríamos regressar – insistiu Gared quando os bosques começaram a escurecer ao redor do grupo. – Os selvagens estão mortos. – Os mortos o assustam? – perguntou Sor Waymar Royce com não mais do que uma sugestão de sorriso no rosto. Gared não mordeu a isca. Era um homem velho, com mais de cinquenta anos, e vira os nobres chegarem e partirem. – Um morto é um morto – respondeu. – Nada temos a tratar com os mortos. – Mas estão mortos? – perguntou Royce com suavidade. – Que prova temos disso? – Will os viu – disse Gared. – Se ele diz que estão mortos, é prova suficiente para mim. Will já sabia que o arrastariam para a discussão mais cedo ou mais tarde. Desejou que tivesse sido mais tarde. – Minha mãe me disse que os mortos não cantam – contou Will. – Minha ama de leite disse a mesma coisa, Will – respondeu Royce. – Nunca acredite em nada do que ouvir junto ao peito de uma mulher. Há coisas a aprender mesmo com os mortos – sua voz criou ecos, alta demais na penumbra da floresta. – Temos uma longa cavalgada pela frente – salientou Gared. – Oito dias, talvez nove. E a noite está para cair. Sor Waymar Royce olhou para o céu de relance, com desinteresse. – Isso acontece todos os dias a esta hora. Você perde a virilidade no escuro, Gared?

Will via a boca de Gared comprimida, a ira só a custo reprimida nos olhos que espreitavam sob o espesso capuz negro de seu manto. Ele passara quarenta anos na Patrulha da Noite, desde que era jovem até se tornar um homem, e não estava acostumado a ser desvalorizado. Mas era mais do que isso. Will conseguia detectar no homem mais velho algo mais sob o orgulho ferido. Era possível sentir-lhe o gosto: uma tensão nervosa que se aproximava perigosamente do medo. Will partilhava o desconforto do outro homem. Estava havia quatro anos na Muralha. Quando fora enviado para lá, todas as velhas histórias ressurgiram em sua mente, e suas entranhas tinham virado água. Era agora um veterano de cem patrulhas, e a sombria e infinita terra selvagem a que os homens do sul chamavam de floresta assombrada já não o aterrorizava.

Até aquela noite. Algo parecia diferente então. Havia naquela escuridão algo ameaçador que fazia os pelos de sua nuca eriçarem. Cavalgavam havia nove dias, para norte e noroeste, e depois de novo para norte, cada vez para mais distante da Muralha, seguindo sem desvios a trilha de um bando de salteadores selvagens. Cada dia fora pior que o anterior. Aquele tinha sido o pior de todos. Um vento frio soprava do norte e fazia as árvores sussurrarem como coisas vivas. Durante todo o dia, Will tivera a sensação de que alguma coisa o observava, algo frio e implacável que não gostava dele. Gared também sentira. Will desejava com toda a sua força cavalgar rapidamente de volta à segurança da Muralha, mas este não era um sentimento que poderia partilhar com um comandante. Especialmente um comandante como aquele.

Sor Waymar Royce era o filho mais novo de uma Casa antiga com herdeiros demais. Era um jovem atraente de dezoito anos, olhos cinzentos, elegante e esbelto como uma faca. Montado em seu enorme corcel de batalha negro, o cavaleiro elevava-se bem acima de Will e Gared, montados em seus garranos de menores dimensões. Trajava botas negras de couro, calças negras de lã, luvas negras de pele de toupeira e uma cintilante cota de malha negra e flexível por cima de várias camadas de lã negra e couro fervido. Sor Waymar era um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite havia menos de meio ano, mas ninguém poderia dizer que não se preparara para a sua vocação. Pelo menos no que dizia respeito ao guarda-roupa. O manto constituía a consumação de sua glória: zibelina, espessa e negra, suave como pele. “Aposto que foi ele mesmo quem as matou todas, ah, com certeza”, dissera Gared na caserna, entre os vapores do vinho, “torceu-lhes as cabecinhas e arrancou-as, o nosso poderoso guerreiro.” A gargalhada fora partilhada por todos. “É difícil aceitar ordens de um homem de quem zombamos de copo na mão”, refletiu Will, sentado, tremendo, sobre o dorso do garrano. Gared devia sentir o mesmo. – Mormont nos disse para os encontrarmos, e encontramos – disse Gared. – Estão mortos. Não voltarão a nos causar problemas. Temos uma dura cavalgada pela frente. Não gosto desse tempo. Se nevar, poderemos levar uma quinzena para regressar, e a neve é o melhor que podemos esperar. Alguma vez viu uma tempestade de gelo, senhor? O nobre pareceu não ouvi-lo. Estudava o crepúsculo, o que acentuava aquele seu modo meio aborrecido e meio distraído. Will já cavalgava com o cavaleiro havia tempo suficiente para compreender que era melhor não o interromper quando tinha aquela expressão. – Diga-me de novo o que viu, Will. Todos os detalhes. Não deixe nada de fora. Will fora um caçador antes de se juntar à Patrulha da Noite. Bem, na verdade fora um caçador furtivo. Os cavaleiros livres de Mallister tinham-no apanhado com a boca na botija nos bosques do próprio Mallister, esfolando um de seus gamos, e pudera apenas escolher entre vestir-se de negro e perder uma mão. Ninguém conseguia se mover pela floresta tão silenciosamente como Will, e os irmãos negros não tinham demorado muito tempo para descobrir seu talento. – O acampamento fica duas milhas mais à frente, para lá daquela cumeada, ao lado de um córrego – disse Will. – Cheguei o mais perto que me atrevi. Eles são oito, com homens e mulheres. Não vi crianças. Ergueram um abrigo contra a rocha. A neve já o cobriu bem, mesmo assim consegui descortiná-lo. Não vi nenhum fogo ardendo, mas a cova da fogueira ainda estava clara como o dia. Ninguém se movia. Observei durante muito tempo. Nunca um homem vivo ficou tão quieto. – Viu algum sangue? – Bem, não – admitiu Will. – Viu armas? – Algumas espadas, uns tantos arcos. Um homem tinha um machado. Parecia ser pesado, com duas lâminas, um cruel bocado de ferro. Estava no chão a seu lado, junto à sua mão. – Prestou atenção à posição dos corpos? Will encolheu os ombros. – Um par deles está sentado junto ao rochedo. A maioria está no chão. Parecem caídos. – Ou adormecidos – sugeriu Royce. – Caídos – insistiu Will. – Há uma mulher numa árvore de pau-ferro, meio escondida entre os galhos. Uma olhos-longos – ele abriu um tênue sorriso. – Assegurei-me de que não conseguiria me ver. Quando me aproximei, notei que ela também não se movia – e sacudiu-se por um estremecimento involuntário. – Está com frio? – perguntou Royce. – Um pouco – murmurou Will. – É o vento, senhor. O jovem cavaleiro virou-se para seu grisalho homem de armas. Folhas pesadas de geada suspiravam ao passar por eles, e o corcel de batalha movia-se de forma inquieta. – Que lhe parece que possa ter matado aqueles homens, Gared? – perguntou Sor Waymar com ar casual, arrumando o longo manto de zibelina. – Foi o frio – disse Gared com uma certeza férrea. – Vi homens congelar no inverno passado e no outro antes desse, quando eu era pequeno. Toda a gente fala de neve com doze metros de profundidade, e do modo como o vento de gelo chega do norte uivando, mas o verdadeiro inimigo é o frio. Aproxima-se em silêncio, mais furtivo do que o Will. A princípio, estremece-se e os dentes batem, e bate-se com os pés no chão e sonha-se com vinho aquecido e boas e quentes fogueiras. Ele queima, ah, como queima. Nada queima como o frio. Mas só durante algum tempo. Então penetra no corpo e começa a enchê-lo, e passado algum tempo já não se tem força suficiente para combatê-lo. É mais fácil limitarmo-nos a nos sentar ou a adormecer. Dizem que não se sente dor alguma perto do fim. Primeiro, fica-se fraco e sonolento, e tudo começa a se desvanecer, e depois é como afundar pacificamente num mar de leite morno. – Quanta eloquência, Gared – observou Sor Waymar. – Nunca suspeitei que a tivesse dentro de si. – Também tive o frio dentro de mim, senhor – Gared puxou para trás o capuz, oferecendo a Sor Waymar um longo vislumbre dos cotos onde as orelhas tinham estado. – Duas orelhas, três dedos dos pés e o mindinho da mão esquerda. Tive sorte. Encontramos meu irmão congelado no seu posto de vigia, com um sorriso no rosto. Sor Waymar encolheu os ombros. – Deveria vestir roupas mais quentes, Gared. Gared lançou ao nobre um olhar feroz, e as cicatrizes em redor de suas orelhas ficaram vermelhas de fúria nos locais onde Meistre Aemon as cortara.

– Veremos quão quente poderá se vestir quando chegar o inverno – puxou o capuz para cima e arqueou as costas sobre o garrano, silencioso e carrancudo. – Se Gared diz que foi o frio… – começou Will. – Você fez alguma vigia nesta última semana, Will? – Sim, senhor – nunca havia uma semana em que ele não fizesse uma maldita dúzia de vigias. Aonde o homem queria chegar? – E em que estado encontrou a Muralha? – Úmida – Will respondeu, franzindo a sobrancelha. Agora que o nobre o fizera notar, via os fatos com clareza. – Eles não podem ter congelado. Se a Muralha está úmida, não podem. O frio não é suficiente. Royce assentiu. – Rapaz esperto. Tivemos alguns frios passageiros na semana passada, e uma rápida nevasca de vez em quando, mas com certeza não houve nenhum frio suficientemente forte para matar oito homens adultos. Homens vestidos de peles e couro, relembro, com um abrigo ali à mão e meios para fazer fogo – o sorriso do cavaleiro transbordava confiança. – Will, leve-nos lá. Quero ver esses mortos com meus próprios olhos. E a partir desse momento nada mais havia a fazer. A ordem fora dada, e a honra os obrigava a obedecer. Will seguiu à frente, com o pequeno garrano felpudo escolhendo com cuidado o caminho por entre a vegetação rasteira. Uma neve ligeira caíra na noite anterior, e havia pedras, raízes e buracos escondidos por baixo de sua crosta, à espreita dos descuidados e dos imprudentes. Sor Waymar Royce vinha logo atrás, com o grande corcel negro de batalha resfolegando de impaciência. Aquele cavalo era a montaria errada para uma patrulha, mas tentem dizer isso ao nobre. Gared fechava a retaguarda. O velho soldado resmungava para si mesmo enquanto avançava. O crepúsculo aprofundava-se. O céu sem nuvens tomou um profundo tom de púrpura, a cor de uma velha mancha escura, e depois se dissolveu em negro. As estrelas começaram a surgir. Uma meia-lua se ergueu. Will estava grato pela luz. – Certamente podemos avançar mais depressa do que isto – disse Royce depois de a lua se erguer por completo. – Com este cavalo, não – respondeu Will. O medo tornara-o insolente. – Talvez meu senhor deseje tomar a dianteira? Sor Waymar Royce não se dignou a responder. Em algum lugar nos bosques, um lobo uivou.

Will levou o garrano para baixo de uma velha e nodosa árvore de pau-ferro e desmontou. – Por que parou? – perguntou Sor Waymar. – É melhor ir o resto do caminho a pé, senhor. O lugar é logo depois daquela colina. Royce fez uma pausa momentânea, de olhos presos na distância e com o rosto pensativo. Um vento frio sussurrou por entre as árvores. O grande manto de zibelina agitou-se nas costas como uma coisa semiviva. – Há alguma coisa errada aqui – murmurou Gared. O jovem cavaleiro lhe sorriu desdenhosamente. – É mesmo? – Não sentiu? – perguntou Gared. – Escute a escuridão. Will sentia. Em quatro anos na Patrulha da Noite, nunca sentira tanto medo. O que era aquilo?

– Vento. Ruído de árvores. Um lobo. Que som te apavora tanto, Gared? – como este não respondeu, Royce deslizou graciosamente da sela. Atou com segurança o corcel de batalha a um galho baixo, bem afastado dos outros cavalos, e desembainhou a espada. Joias cintilaram no punho e o luar percorreu o aço brilhante. Era uma arma magnífica, forjada num castelo e, segundo aparentava, novinha em folha. Will duvidava que alguma vez tivesse sido brandida em fúria. – O arvoredo é espesso por aqui – preveniu Will. – Essa espada o atrapalhará, senhor. Uma faca é melhor. – Se precisar de instruções, eu as pedirei – disse o jovem senhor. – Gared, fique aqui. Guarde os cavalos. Gared desmontou. – Precisamos de uma fogueira. Cuidarei disso.

– Quanta tolice tem nessa cabeça, velhote? Se houver inimigos nesta floresta, uma fogueira é a última coisa que queremos. – Há alguns inimigos que uma fogueira manterá afastados – disse Gared. – Ursos, lobos gigantes e… e outras coisas… A boca de Sor Waymar transformou-se numa linha dura. – Não haverá fogo. O capuz de Gared engolia-lhe o rosto, mas Will conseguia ver a cintilação dura nos olhos que se fixavam no cavaleiro. Por um momento, temeu que o homem mais velho puxasse a espada. Era uma coisa curta e feia, com o punho desbotado pelo suor e o gume denteado pelo uso frequente, mas Will não daria um pendão de ferro pela vida do nobre se Gared a desembainhasse. Por fim, Gared olhou para baixo.

– Não haverá fogo – murmurou de forma quase inaudível. Royce tomou aquilo como aquiescência e virou-se. – Indique o caminho – disse a Will. Will teceu uma trilha através de um matagal, depois subiu o declive da colina baixa onde encontrara seu ponto de vigia, por baixo de uma árvore sentinela. Sob a fina crosta de neve, o solo estava úmido e lamacento, escorregadio, com rochas e raízes escondidas, prontas para provocar tropeços. Will não fez nenhum som enquanto subia. Atrás de si ouvia o suave roçar metálico da cota de malha do nobre, o restolhar de folhas e pragas murmuradas quando galhos se prendiam à espada e puxavam o magnífico manto de zibelina do outro homem.

A grande árvore estava mesmo no topo da colina onde Will sabia que estaria, com os galhos inferiores não mais que trinta centímetros acima do solo. Will deslizou por baixo, com a barriga apoiada na neve e na lama, e olhou a clareira vazia mais abaixo. O coração parou em seu peito. Por um momento, não se atreveu a respirar. O luar brilhava acima da clareira, sobre as cinzas no buraco da fogueira, sobre o abrigo coberto de neve, sobre o grande rochedo e sobre o pequeno riacho meio congelado. Tudo estava como estivera algumas horas antes. Eles não estavam lá. Todos os corpos tinham desaparecido. – Deuses! – ouviu alguém dizer atrás de si. Uma espada golpeou um galho quando Sor Waymar Royce atingiu o topo da colina. Ficou em pé ao lado da árvore, de espada na mão, com o manto a ondular nas costas, soprado pelo vento que se levantava, nobremente delineado contra as estrelas para que todos o vissem. – Abaixe-se! – sussurrou Will com urgência. – Há algo de errado. Royce não se moveu. Olhou para a clareira vazia e deu risada. – Parece que seus mortos levantaram acampamento, Will. A voz de Will o abandonou. Procurou palavras que não vieram. Não era possível. Seus olhos percorreram toda a extensão do acampamento abandonado e pararam no machado. Um enorme machado de batalha de duas lâminas, ainda caído onde o vira pela última vez, intocado. Uma arma valiosa… – De pé, Will – ordenou Sor Waymar. – Não há ninguém aqui. Não quero vê-lo escondido por baixo de um arbusto. Relutante, Will obedeceu. Sor Waymar olhou-o com aberta desaprovação: – Não vou regressar a Castelo Negro com um fracasso em minha primeira patrulha. Vamos encontrar aqueles homens – olhou de relance em volta. – Suba na árvore. Seja rápido. Procure uma fogueira. Will virou-se, sem palavras. Não valia a pena discutir. O vento movia-se. Trespassava-o. Dirigiu-se para a árvore, uma sentinela abobadada cinza-esverdeada, e começou a subir. Em pouco tempo tinha as mãos pegajosas de seiva e estava perdido entre as agulhas. O medo enchia-lhe o estômago como uma refeição que não conseguia digerir. Murmurou uma prece aos deuses sem nome da floresta e libertou o punhal da bainha. Colocou-o entre os dentes para manter as mãos livres para a escalada. O sabor do ferro frio na boca o confortou. Embaixo, o nobre bruscamente gritou: – Quem vem lá? Will ouviu incerteza na pergunta. Parou de escalar; escutou; observou. Os bosques responderam: um restolhar de folhas, o correr gelado do riacho, o pio distante de uma coruja das neves. Os Outros não faziam som algum. Will viu movimento com o canto do olho. Sombras pálidas que deslizavam pela floresta. Virou a cabeça, viu de relance uma sombra branca na escuridão. Logo depois ela desapareceu. Galhos agitaram-se gentilmente ao vento, coçando uns aos outros com dedos de madeira. Will abriu a boca para gritar um aviso, mas as palavras pareceram congelar na garganta. Talvez estivesse errado.

Talvez tivesse sido apenas uma ave, um reflexo na neve, um truque qualquer do luar. Afinal, o que vira? – Will, onde está? – chamou Sor Waymar. – Vê alguma coisa? – o homem descrevia um círculo lento, cauteloso, de espada na mão. Deve tê-los pressentido, tal como Will os pressentia. Nada havia para ver. – Responda! Por que está tão frio? E estava frio. Tremendo, Will agarrou-se com mais força ao seu poleiro. Apertou o rosto com força contra o tronco da árvore. Sentia a seiva doce e pegajosa na bochecha. Uma sombra emergiu da escuridão da floresta. Parou na frente de Royce. Era alta, descarnada e dura como ossos velhos, com uma carne pálida como leite. Sua armadura parecia mudar de cor quando se movia; aqui era tão branca como neve recém-caída, ali, negra como uma sombra, por todo o lado salpicada com o escuro cinza-esverdeado das árvores. Os padrões corriam como o luar na água a cada passo que dava. Will ouviu a exalação sair de Sor Waymar Royce num longo silvo. – Não avance mais – preveniu o nobre. A voz estava esganiçada como a de um rapaz. Atirou o longo manto de zibelina para trás, por sobre os ombros, a fim de libertar os braços para a batalha, e pegou na espada com ambas as mãos. O vento parara. Estava muito frio. O Outro deslizou para a frente sobre pés silenciosos. Na mão, trazia uma espada diferente de tudo que Will tivesse visto. Nenhum metal humano tinha entrado na forja daquela lâmina. Estava viva de luar, translúcida, um fragmento de cristal tão fino que parecia quase desaparecer quando visto de frente. Havia naquela coisa uma tênue cintilação azul, uma luz fantasmagórica que brincava com os seus limites, e de algum modo Will soube que era mais afiada do que qualquer navalha. Sor Waymar enfrentou o inimigo com bravura. – Neste caso, dance comigo. Ergueu a espada bem alto, acima da cabeça, desafiador. As mãos tremiam com o peso da arma, ou talvez devido ao frio. Mas naquele momento, pensou Will, Sor Waymar já não era um rapaz, e sim um homem da Patrulha da Noite. O Outro parou. Will viu seus olhos, azuis, mais profundos e mais azuis do que quaisquer olhos humanos, de um azul que queimava como gelo. Will fixou-se na espada que estremecia, erguida, e observou o luar que corria, frio, ao longo do metal. Durante um segundo, atreveu-se a ter esperança. Emergiram em silêncio, das sombras, gêmeos do primeiro. Três… quatro… cinco… Sor Waymar talvez tivesse sentido o frio que vinha com eles, mas não chegou a vê-los, não chegou a ouvi-los. Will tinha de chamá-lo. Era seu dever. E sua morte, se o fizesse. Estremeceu, abraçou a árvore e manteve o silêncio. A espada clara veio pelo ar, tremendo. Sor Waymar parou-a com o aço. Quando as lâminas se encontraram, não se ouviu nenhum ressoar de metal com metal, apenas um som agudo e fino, quase inaudível, como um animal a guinchar de dor. Royce deteve um segundo golpe, e um terceiro, e depois recuou um passo. Outra chuva de golpes, e recuou outra vez. Atrás dele, para a direita, para a esquerda, à sua volta, os observadores mantinham-se em pé, pacientes, sem rosto, silenciosos, com os padrões mutáveis de suas delicadas armaduras a torná-los quase invisíveis na floresta. Mas não faziam um gesto para intervir. Uma vez e outra, as espadas encontraram-se, até Will querer tapar os ouvidos, protegendo-os do estranho e angustiado lamento de seus choques. Sor Waymar já arquejava por causa do esforço, e a respiração criava nuvens ao luar. Sua lâmina estava branca de gelo; a do Outro dançava com uma pálida luz azul. Então, o golpe de Royce chegou um pouco tarde demais. A espada cristalina trespassou a cota de malha por baixo de seu braço. O jovem senhor gritou de dor. Sangue surgiu por entre os aros, jorrando no ar frio, e as gotas pareciam vermelhas como fogo onde tocavam a neve. Os dedos de Sor Waymar tocaram o flanco. Sua luva de pele de toupeira veio empapada de vermelho. O Outro disse qualquer coisa numa língua que Will não conhecia; sua voz era como o quebrar do gelo num lago de inverno, e as palavras, escarnecedoras. Sor Waymar Royce encontrou sua fúria. – Por Robert! – gritou, e atacou, rosnando, erguendo com ambas as mãos a espada coberta de gelo e brandindo-a num golpe lateral paralelo ao chão, carregado com todo o seu peso. O golpe do Outro foi quase displicente. Quando as lâminas se tocaram, o aço despedaçou-se. Um grito ecoou pela noite da floresta, e a espada quebrou-se numa centena de pedaços, espalhando os estilhaços como uma chuva de agulhas. Royce caiu de joelhos, guinchando, e cobriu os olhos. Sangue jorrou-lhe por entre os dedos. Os observadores aproximaram-se uns dos outros, como que em resposta a um sinal. Espadas ergueram-se e caíram, tudo num silêncio mortal.

Era um assassinato frio. As lâminas pálidas atravessaram a cota de malha como se fosse seda. Will fechou os olhos. Muito abaixo, ouviu as vozes e os risos, aguçados como pingentes. Quando reuniu coragem para voltar a olhar, um longo tempo se passara, e a colina lá embaixo estava vazia. Ficou na árvore, quase sem se atrever a respirar, enquanto a lua foi rastejando lentamente pelo céu negro. Por fim, com os músculos cheios de cãibras e os dedos dormentes de frio, desceu. O corpo de Royce jazia de barriga para baixo na neve, com um braço aberto. O espesso manto de zibelina tinha sido cortado numa dúzia de lugares. Jazendo assim morto, via-se como era novo. Um rapaz. Will encontrou o que restava da espada a alguns pés de distância, com a extremidade estilhaçada e retorcida, como uma árvore atingida por um relâmpago. Ajoelhou-se, olhou em volta com cautela e a apanhou. A espada quebrada seria sua prova. Gared saberia compreendê-la, e, se não soubesse, então haveria o velho urso do Mormont ou o Meistre Aemon. Estaria Gared ainda à espera com os cavalos? Tinha de se apressar. Will endireitou-se. Sor Waymar Royce erguia-se sobre ele. Suas belas roupas eram farrapos, o rosto, uma ruína. Um estilhaço da espada trespassara a agora branca e cega pupila do olho esquerdo. O olho direito estava aberto. A pupila queimava, azul. Via. A espada quebrada caiu de dedos despidos de força. Will fechou os olhos para rezar. Mãos longas e elegantes roçaram em sua bochecha e depois se fecharam em volta de sua garganta. Estavam enluvadas na mais fina pele de toupeira e pegajosas de sangue, mas seu toque era frio como gelo.